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Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Há coisas que têm de ser feitas

M., 26.08.21

A menina esteve por aqui a ler os seus textos, em especial este. A menina tem andado pelas esplanadas que abriram há uns meses, felizmente e conforme o previsto. A menina já ficou, inclusive, até depois das duas da manhã numa belíssima esplanada, a relembrar o antigamente (vulgo 2019, aquele ano em que tudo era normal). De vez em quando, a menina gosta de vir aqui soltar umas palavrinhas. Diz que faz bem à sua alma. É como organizar os armários lá de casa, sabem? Não é sempre, é assim, de vez em quando, sem grandes regras e apenas se houver uma grande necessidade (que deve ser aproveitada imediatamente, antes que fuja!). A menina não sabe se alguém vem ler estes devaneios. Assim como nunca se sabe se nos vai entrar uma inspetora temível pelos armários adentro. A menina só sabe que há coisas que têm de ser feitas, nos armários lá de casa e na escrita. 

Opinião: A Cidade das Mulheres - Elizabeth Gilbert

M., 13.03.21

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Lembrei-me de partilhar este livro, por ocasião do dia da Mulher. Foi das primeiras leituras de 2021 e apesar de ter ficado aquém dos outros que li da autora (Comer, Orar Amar e Big Magic), a verdade é que conseguiu prender a minha atenção e que o li muito rapidamente. 

A Cidade das Mulheres traz-nos a história de Vivian Morris, na voz da própria, que faz uma grande retroespetiva à sua vida. Começa no momento em que, aos 19 anos, na década de 1940, é enfiada num comboio com destino a Nova Iorque para ir viver com a sua tia Peg. Vivian, personagem principal e narradora, está sempre a relatar a sua história para alguém, naquilo que parece uma carta (e que exteeeensa carta!). Só nas últimas páginas é que vamos descobrir quem é esta "pessoa-mistério". 

Vivian chega à Grand Central Station após ser expulsa do colégio privado, de casa dos pais e de toda uma vida protegida com a qual não se identificava. A tia Peg representava o oposto de tudo o que conhecia, uma mulher excêntrica, proprietária de um teatro decadente.  Previsivelmente, a jovem deslumbra-se pelo mundo do teatro daquela época. O livro tem descrições tão visuais que nos convidam a ficar na fila da frente dos espectáculos do Lily Playhouse, com acesso exclusivo aos bastidores e aos interiores das personagens, na maioria mulheres, com destaque para as coristas que deslumbravam qualquer um (e qualquer uma).

Captura de ecrã 2021-03-13, às 20.04.12.pngFonte: https://www.flickr.com/photos/hollywoodplace/6551166369/in/photostream/

É curioso perceber o papel das mulheres no meio artístico, alheias à submissão e até à Guerra que ainda pouco se fazia sentir. Talvez não estejamos habituados a histórias dos anos 40 e 50 com mulheres que sendo normais, isto é, não tendo conquistado nenhum feito histórico ou revolucionário, eram naturalmente irreverentes. Vivian é uma personagem fictícia, mas estas mulheres existiram mesmo, a autora chegou a entrevistar algumas durante o trabalho de pesquisa.

É por isso que, para mim, faz todo o sentido trazer um livro que não seja sonante como a biografia da Frida Kahlo ou da Oprah, porque isso seria (mais uma vez) obedecer ao estereótipo da mulher que deve ser destacada em dias comemorativos. 

Não existe uma única definição de mulher. Esta é a mensagem mais bonita e mais verdadeira a retirar desta história. Aquilo que para algumas pessoas é um escândalo, pode ser um modo de vida para outras. Aquilo que é socialmente esperado, é o pior pesadelo de tantas outras. O que está errado para a maioria, trás felicidade a alguém. Que haja liberdade e respeito perante qualquer uma das nossas escolhas, desde uma simples peça de roupa ou corte de cabelo, à profissão exercida ou aos interesses. Sem estigmas sociais. Sem olhares de julgamento. Sem comentários desnecessários. Isto é tudo o que queremos e precisamos de conquistar.

A Vivian é um exemplo dessa liberdade, do fora do comum, do mal visto. Só por isso, vale a pena conhecê-la e fazer esta viagem.

Podem assistir aqui a uma entrevista informal sobre o livro, com a própria Elizabeth Gilbert.

Espero que gostem! E que todos os dias sejam nossos, queridas Mulheres!

A (minha) luz ao fundo do túnel

M., 12.03.21

Pois é, chegámos a Março de 2021. Já convivemos com o bicho há doze meses, cinquenta e duas semanas, trezentos e sessenta e cinco dias. Não estivemos confinados durante estes meses na íntegra, mas se disser que já nem nos lembramos das pequenas brechas de liberdade que houve, acho que falo por todos, não é?

Posto isto, o que tenho para vos dizer? Nada de novo. Qualquer coisa que eu diga aqui não será mais do que uma repetição. Afinal, o que mais tem acontecido neste ano é mesmo isso: a repetição. Os dias da semana arrastam-se em modo fotocópia. Os fins-de-semana oscilam entre o sentimento de sorte por ter jardins bonitos perto de casa e a frustração de não ver o mar há meses. Mesmo essa oscilação torna-se ela própria numa repetição. As séries e filmes vão se esgotando, os livros vão-se empilhando, nas estantes e fora delas. Nunca comprei tantos livros online na minha vida. É indubitavelmente mais prático? Sim. Substitui a ida às livrarias? Nem pensar.

A iniciativa para convencer pessoas a fazer alguma atividade tem sido a minha luta. Parece que se esqueceram que caminhar na rua pode ser uma forma segura de conviver. Por muito que passe várias horas por dia agarrada ao WhatsApp, tornei-me na maior defensora dos passeios higiénicos, embora não simpatize nadinha com a combinação das palavras passeio e higiénico. Olhem, é o que temos.

Entretanto, eu já avisto uma luzinha lá ao fundo, já, sim senhor! Dizem que na próxima semana abrem as livrarias e que no dia cinco do mês que vem, vamos poder sentar o real traseiro e beberricar um café ou qualquer outra coisinha, ao ar livre. Esplanadas. Ainda se lembram?

Fiquei contente com esta notícia, não desfazendo a reabertura das creches e escolas (pais, mães, professores: a minha solidariedade para convosco!), nem os cabeleireiros que já mereciam estar abertos há tanto tempo, assim como os pequenos comerciantes que estão por um fio e claro, todo o setor da restauração, provavelmente o mais prejudicado. Há muitos negócios a passar dificuldades, e todos os negócios são feitos de pessoas de carne e osso, com fome e contas para pagar, como qualquer um de nós.

Deixa-me triste observar os poucos apoios que existem e assistir ao desespero dos outros no conforto da minha casa, afinal eu pertenço à burguesia do teletrabalho, segundo dizem. Não quero que pensem que sou indiferente ao que se passa, muito pelo contrário. Mas se eu puder pensar nestas questões numa esplanada com uma vista agradável, ao sol, enquanto bebo uma Somersby e troco palavras com pessoas que estão realmente à minha frente, serei menos uma na lista de espera para o Júlio de Matos.

Portanto, a partir desse dia, se não houver retrocessos inesperados, saberão onde me encontrar.

A vizinha risonha

M., 01.03.21

Todas as manhãs é o mesmo espetáculo. Começa de mansinnho, um burburinho que irrompe o silêncio da madrugada. Ainda o relógio nem marca as seis da manhã. Pequenino, cronometrado, suave. Primeiro com o i, depois o a, por fim o u. Ao menos podia seguir uma ordem, penso eu todas as manhãs. Das primeiras vezes, pensei que fossem aqueles pombos chatos que teimam em fazer ninhos por cima das janelas, mas depressa percebi que vinha do andar de baixo. 

O burburinho aumenta. Já nem a almofada por cima da cabeça abafa aquilo. E surgem guinchos, relinchares, notas muito agudas! Não digo música porque nem sei se se pode considerar tal coisa. Na verdade são risos. Embora me custe admitir que os risos fazem com que eu acorde mal humorada todas as manhãs desde que me mudei para o novo apartamento. O espetáculo procede, desconfio até que com tachos e panelas à mistura. Que coisa tão estranha. Que vizinha tão estranha.

Cerca de uma hora mais tarde, lá me cruzo com ela no elevador. Cada dia, uma peruca diferente.  Quantas perucas é possível uma pessoa ter? Já vivo aqui há um mês e duas semanas e nunca a vi repetir nenhuma. Oh, e a roupa… um verdadeiro atentado a todos os séculos de moda. Pintas com riscas, flores com quadrados, amarelo com verde, lantejoulas azuis com veludo roxo, eu sei lá… Só de pensar nisso, fico com vontade de me enfiar no meu armário e recuperar o choque nos meus tons neutros, impecavelmente engomados e organizados. Se estivéssemos na escola, ela seria vítima de bullying, de certezinha absoluta. Mas a sua escola é outra... 97 anos de vida e uma gargalhada a rematar o final de cada frase provam que é imune a qualquer tipo de bullying.

Admito: invejo-a. A minha vizinha do quarto direito parece saída de um filme de fantasia. Enfrenta o tudo com sorrisos, ora doces, ora histéricos. Creio que também já lhe reconheci um riso de irritação, quando se indigna com alguma coisa. Nunca tinha pensado nisto, mas os sorrisos e os risinhos podem ser usados para todas as situações, são versáteis. E o facto é que àquela mulher, qual embaixatriz, ninguém os tira.

Vive sozinha num apartamento com quatro quartos, dança pelo corredor, ocupa as salas com passos e risinhos, fala com as flores, brinca com os espelhos. Não me fazia mal nenhum deixar que me contagiasse. Que alegria deve ser viver numa casa com 97 anos de histórias e quilómetros de riso! Oxalá seja à prova de paredes e tetos. Amanhã, experimento rir-me também.

Long time no see, Mr. G.

M., 27.02.21

Houve um ano em que a vida maltratou Mr.G., várias vezes, antes de Mr. G. começar a maltratar-se a si próprio, ao ponto de abandonar as suas histórias.

Mr. G. foi forçado a viver com mais amargura, mesmo quando algo de bom acontecia. Não havia maneira de fugir, nem de esquecer. Os infortúnios da vida tinham vindo para ficar e nada do que fizesse conseguia dissipá-los, era preciso aprender a viver com eles. Não era uma questão de tempo, ou era, se pensarmos que seria assim até ao fim do tempo. Mr. G. sabia que a felicidade pura, esse estado, essa sensação, esse quase-milagre, nunca mais iria voltar. Pode ser feliz ainda, sem dúvida que sim, mas... faltam-lhe as suas pessoas mais queridas. Nunca mais iria vivenciar a felicidade na sua forma pura. Partiram demasiado cedo e Mr. G. sentiu-se só, muito só. Mesmo quem estava mais longe o fez sentir só. Esqueceu-se daquilo que era. Deixou de sentir. Mais grave de tudo: esqueceu-se que era um contador de histórias. Bem sabemos que quem não consegue sentir, tão pouco consegue contar histórias.

Nesse ano de número amaldiçoado, Mr. G. teve prazeres que provavelmente não saboreou da melhor maneira (como poderia? quanto tempo demora até alguém deixar de se sentir culpado pela sua alegria, depois da tristeza?). Mas Mr. G. não deixou de ir. Andou de comboio e de avião, viu casas bonitas, prédios impressionantes e pessoas. Muitas, tantas personagens possíveis que podiam ter nascido ali e acolá. Ele próprio foi o seu personagem, em diversas situações. Podia ser uma mão cheia de criações, não fossem tão escassos os picos de inspiração. Mr. G. tinha a capacidade de ser a sua própria inspiração. Às vezes não precisava de mais nada para além dele mesmo. Num sítio qualquer, com uma vista qualquer, vestido de uma forma qualquer. Depois, viria um cheiro, um som, algo que lhe despertava ideias, aquele diálogo mental que lhe alimenta a alma e que silenciava cada vez mais.

Histórias. É difícil prever o momento certo para as contar. Todavia, um contador de histórias não se esquece assim tão facilmente. Felizmente, é o caso de Mr. G., pois ainda ontem lhe veio à memória a rapariga francesa com brincos de prata que acredita em contos de fadas. Lembrou-se também dos três truques que a senhora de meia idade com chapéu de pescador lhe segredou no jardim das rosas.

Aquele maldito ano finalmente deu lugar a um novo. Mr. G. ainda vive, ainda que com mazelas, e voltou a lembrar-se de como é bom contar histórias.