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Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Ter | 17.09.19

Somos todos pessoas

 

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Já pensaram no medo que temos em falar com estranhos na rua? 

OK, os extrovertidos poderão responder "medo? que medo?". Ótimo para vocês, a sério. Comigo não é assim e sei que não estou sozinha neste tema. Sinto uma certa desconfiança, um desconforto que me faz evitar trocar mais do que o ar que nos rodeia.  

Há uns dias fui abordada, praticamente à porta de casa, por uma pessoa que me pediu indicações em inglês. Eu respondi educadamente e expliquei-lhe as direções. O "problema" foi quando a pessoa continuou a falar, a fazer perguntas, a querer conhecer-me. Ali, no meio da rua, daquela forma tão aleatória. Uma parte de mim queria dizer "olha, desculpa mas estou com pressa, vou andando", enquanto que outra dizia "calma, esta pessoa está só a ser simpática e a querer conversar, podias retribuir um bocado!". Assim fiz. Ainda abordámos meia dúzia de temas para um curto espaço de tempo.

Este tipo de situações não me costuma acontecer a uma segunda-feira na pausa de almoço. Até porque vivo num bairro muito pacato e já vou conhecendo as pessoas que passam na rua a determinadas horas. Mesmo assim, não é toda a gente que cumprimento. Às vezes sai um "bom dia" ou um "boa tarde", um sorriso, e segue-se caminho. Outras vezes, inexplicavelmente, até olhar nos olhos da outra pessoa custa. 

Fiquei a pensar na minha reação exagerada a uma simples abordagem sem nenhuma maldade. Afinal, não somos todos pessoas? Não comunicamos todos? Uns mais do que outros, sim, não há mal nenhum nisso. O mal está em esquecermo-nos que aqui à frente e ali ao lado passam pessoas como nós. 

Dom | 15.09.19

Uma Educação - Tara Westover // Opinião

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O que é a Educação? De que forma é que pode influenciar-nos ao longo da vida? Pode haver mil e uma respostas a estas questões, mas garanto-vos que vale a pena conhecer as de Tara Westover.

Uma Educação é a história de uma menina que nunca foi vacinada, não tinha certidão de nascimento e só entrou numa escola aos 16 anos de idade. Tara cresceu no seio de uma família numerosa, empreendedora e imensamente agarrada às suas ideologias, que vão muito além da religião - o Mormonismo.

Devo dizer que gostei muito da abordagem à religião. Logo no início, existe uma nota a alertar que este livro não é sobre religião, porque na verdade o problema não é a religião mas sim o modo como as pessoas a vivem. Senti até um certo carinho dela para com a religião. Numa das várias entrevistas que vi após ler o livro (porque é simplesmente impossível não querer saber mais sobre esta pessoa), Tara é desafiada a cantar e a canção que escolhe é um hino mórmon. Durante os segundos em que canta podemos observar expressão de tranquilidade, como se estivesse a revisitar boas memórias, o que me faz crer que ela tem uma relação de amor e não de ódio com a religião. Vindo de alguém que teria vários motivos para se revoltar, esta atitude é de louvar! 

Voltando ao  livro...

Os relatos reais e muito detalhados narrados pela voz de uma criança enriquecem sobremaneira toda a experiência de leitura, tornam a história mais autêntica, faz-nos sentir a ingenuidade de uma Tara-menina que achava natural trabalhar horas a fio numa sucata, correndo risco de vida. Embora a sua intuição muitas vezes dissesse que era perigoso fazer certas coisas, como manobrar máquinas perigosas sem nenhuma proteção, ela continua a fazê-lo, pois vê no pai a autoridade máxima e acima de tudo sabe que ele a ama.

A partir do momento em que Tara entra na Faculdade, as descrições ficam cada vez mais sucintas, o que me desiludiu um pouco, já que era a parte que eu mais ansiava: aquele momento em que os contrastes se revelariam, com a vida nova num mundo desconhecido (noutro Continente, até!). Estes episódios são frequentemente interrompidos pelos vários regressos a casa, onde continuam a acontecer coisas insólitas. É bem visível que a autora dá muito mais relevância aos relatos da vida em Idaho, junto à montanha de Bucks Peak, num ambiente dominado por crenças apocalípticas, violência, preconceito, maxismo… Um ambiente que a marcou para sempre, contudo, sem a demover das suas ambições.

Não foi preciso muito para Tara querer começar a estudar e ir mais além. Foi preciso um irmão mais dado aos estudos para ela perceber que existia essa possibilidade, mas o resto do caminho foi ela que traçou. Somos inevitavelmente formatados pelas pessoas que nos são mais próximas e pelo ambiente em que crescemos. No entanto, nada é mais forte do que a força de vontade, este testemunho é mais uma prova disso.  Se esta pessoa conseguiu, mesmo vivendo naquele lugar recôndito, com um pai fanático, uma mãe submissa e um irmão violento… Sinceramente, acho que temos lições valiosas a retirar daqui. Quantos de nós não deixamos de fazer o que queremos com medo de desiludir as pessoas mais próximas? Ou porque acreditamos que "é assim a vida"?

Quando sentirem que não têm opções em qualquer situação que seja, pensem neste exemplo incrível, leiam o livro, reflitam. Esta mulher pegou no seu desconhecimento completo do mundo, para além das montanhas que rodeavam a sua casa, para se doutorar em História pela Universidade de Cambridge. É um exemplo de determinação, ambição e coragem.

Se ficaram curiosos, podem espreitar as primeiras páginas aqui. You’re welcome ! :)