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Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Contra todos os restos

M., 21.02.21

De todas as crueldades e injustiças do mundo, havia algo que tirava a pequena Natália do sério: os restos que ficavam nas chávenas, nos copos, nas canecas, nas tigelas, nos pratos, enfim. Por que razão as pessoas deixavam escassos mililitros ou migalhas para trás, era algo que lhe custava verdadeiramente entender.

A avó Lucinda sempre lhe ensinara que era feio deixar restos, fosse do que fosse. Era preferível pedir pouco e repetir, se necessário. Em sua casa, a rotina de servir alguém era prazerosa. Não era só comida ou bebida, era amor e dedicação. Isso mesmo. Amor e dedicação trazidos pelas mãos manchadas da avó Lucinda que cheiravam sempre às tangerinas que avó descascava e comia ao pequeno almoço. Sempre três e sempre ao pequeno-almoço. Natália podia jurar que até os cabelos acobreados da avó emanavam a fragrância daquelas tangerinas tão pequeninas e docinhas. Certo dia, chegou à conclusão que a cor do cabelo da avó só podia ser assim por causa das tangerinas, porque todas as outras avós já tinham o cabelo branco e a avó Lucinda não. Quando fez 8 anos, a avó ofereceu-lhe um pequeno vaso com terra e sementes de tangerina algures lá dentro escondidas. Natália acreditava na avó, quando esta lhe dizia que dali ia nascer uma pequena árvore de onde iam brotar tangerinas. E como era difícil acreditar em coisas que não se veem! 

À medida que as sementes de tangerina germinavam, também o sentido de responsabilidade começava a surgir na menina que agora já não se sentia tão pequena. Natália quis saber mais coisas para além do que aprendia na Escola e passar a ter outras preocupações. Preocupações de gente grande, sabem? Ouviu alguém dizer, na televisão, que ter causas era muito importante. Defender alguma coisa, apoiar, ou lutar contra. Natália pensou nisto durante dias a fio, até que foi na sua própria sala que se apercebeu de algo que a tirava verdadeiramente do sério. Então não era que as vizinhas que visitavam a avó à terça-feira, deixavam restos de chá nas chávenas servidas com tanto carinho? E quando havia almoços de família daqueles maiores, o tio Zé era capaz de alimentar um coelho só com o que deixava no prato. Como podia isto ser? Aos adultos não diziam nada, só as crianças eram repreendidas. Não lhe parecia nada justo. Voluntariava-se para levantar a mesa e corria de imediato para o seu vaso, onde despejava os restos de água, chá ou café. No meio de todo o azar de ter de assistir a este desperdício, aquela ia ser uma planta de sorte. Mas não era suficiente, as sobras persistiam e quanto mais reparava, mais sobras via em todo o lado. Foi assim que nasceu a sua primeira grande causa: contra todos os restos.

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