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Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

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Ter | 14.04.20

Crochet pandémico

C(o)rónicas de Quarentena #3

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A minha mãe decidiu que queria fazer crochet. 

Já não fazia há muito tempo, tem saudades de algo que não a obrigue a ficar agarrada a um ecrã (como a compreendo!) e, vai na volta, começou a remexer em tudo quanto são caixas e caixinhas, à procura do material. Encontrou as agulhas e um pequeno novelo branco. À partida servia para treinar.

Acontece que a minha mãe é uma pessoa extremamente jeitosa em tudo o que envolve trabalhos manuais, o que me faz questionar se serei adotada, porque tal jeitinho não chegou aqui a estes genes. Portanto, rapidamente começou a esgotar as coisas que podia fazer só com um novelo branco e queria mais. Mais cores, mais diversidade, mais opções.

Foi então que começou a pedir-me para lhe comprar novelos de lã. Eu no primeiro dia nem liguei, respondi algo do género "sim, está bem, vou já a correr comprar-te novelos de lã no meio desta pandemia". No dia seguinte, a mesma conversa. "Mãe, está tudo fechado" informava eu. Ela não insistia mais e continuavavamos ambas o que estavamos a fazer. Mas isto estava longe de acabar. No dia a seguir, voltou a pedir-me e eu voltei a explicar que como as lojas estão fechadas, o melhor era comprar online. Recebi um encolher de ombros em troca. Só que não era uma desistência. Porque, segundo ela, de certeza que na loja chinesa havia. "Há aquela mercearia chinesa que vende fruta e legumes e lá ao fundo tem coisas para a casa, lá de certeza que consegues comprar, vá lá, vai-me lá comprar que eu estou cheia de vontade de fazer isto".

Pronto. Foi a gota de água. Peguei nela e fomos as duas dar uma volta de carro aqui pelo bairro, para que a Teimosa Mor cá de casa pudesse ver e acreditar que quando afirmo que está tudo fechado, não estou mesmo a exagerar. Avistavam-se pessoas nas filas para as mercearias e farmácias. De resto, tudo fechado, como eu andava há dias a tentar explicar. É triste. Para quem não punha os pés na rua há várias semanas, foi um choque grande. Tentei remediar a situação oferecendo-me para a ajudar a pesquisar online e encomendar.

Meus amigos, o que eu não sabia é que há todo um Universo do Crochet! Uma pessoa entra num site, e aparecem 53 nomes, que agora percebi que são marcas, para que possamos escolher. Esqueçam lá definições de lã fininha ou grossa, vocês têm de decidir é entre a Katia, a Nikita, a Merinho, a Charminho... o que é isto? Eu não quero adotar caniches, quero só comprar novelos de lã...!

Pior do que este primeiro embate, foi depois ver o preço de cada "caganita" de 50 gramas. Pois que a senhora minha mãe continuava a teimar que no chinês é muito mais barato. "Podes sempre mandar vir da China, daqui a um mês, com sorte, devem chegar" rematei.

Resumindo e baralhando: continuamos sem novelos nem perspetivas de os ter porque 1) as lojas estão fechadas, 2) as encomendas demoram muito tempo a chegar, 3) as que chegam em tempo razoável são demasiado caras e 4) uma pessoa que é leiga no assunto tem medo de arriscar e deitar dinheiro ao lixo.

De modo que estou de mãos e pés atados com fios de lã invisíveis.

Caramba... Nunca pensei que uma atividade tão adorável como o crochet me desse estas dores de cabeça!

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