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Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Letra Éme

uma série de devaneios meticulosamente desordenados

Pó nos dedos e frio nos pés

M., 19.02.21

É preciso ser paciente até para aquecer os pés. Sim, esta atividade que não depende de mais ninguém, quando se está só, numa cama fria, em tempo de tempestades e depressões com nome de gente. Não envolve esforço nenhum, palavra nenhuma, ação alguma, senão apenas a lenta observação imaginada do sangue quente a fluir na direção dos pés. Para isso só é preciso que o coração continue a pulsar, como faz todos os dias, a todos os segundos, desde que somos gente, muito antes de termos pés, cabelo, ou dentes.

Serão estas as coisas que tomamos por garantidas? Este pulsar, que aquece a cama quando se está só numa cama fria, em noite de tempestades e depressões com nome de gente? Talvez, sim. Talvez a impaciência sirva para darmos valor às coisas simples. Se não fosse a impaciência (e o frio), eu não estaria para aqui a divagar. Dá-me menos trabalho ir à procura do carregador do computador, ligá-lo, empilhar duas almofadas para me encostar à parede enquanto o coloco no colo, entrar aqui e tirar o pó dos dedos que já sofrem de preguicite crónica. Dá-me menos trabalho fazer tudo isto do que aquecer os pés naturalmente, estando só, numa cama fria, em noite de tempestades e depressões com nome de gente.

Nunca confiei naqueles aparelhos esquisitos que se ligam à corrente e de repente já estão quentes. Também já não tenho sacos de água quente há largos anos, desde que doei o meu boneco da Rua Sésamo, que tinha uma pequena botija armazenada na barriga (era o Egas!). Não me resta então outra alternativa senão debitar umas palavras, enquanto espero e observo.

A sensação confortável de calor acaba por chegar. Bem devagar, muito devagarinho mesmo, apropriando-se das extremidades geladas que atrasam a chegada do sono e que teimam em relembrar que o inverno ainda existe e não é só lá fora.

Enquanto expulsei o inverno dos dedos dos pés, tirei o pó dos dedos das mãos. 

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